Casa de Chá da Boa Nova:
um desenho dentro da paisagem

Entre o mar e a terra, nesse lugar de contemplação

No final da Marginal de Matosinhos, entre o mar e a terra, a Casa de Chá da Boa Nova respira como um desenho que se funde e confunde com a própria paisagem. As pedras e as ondas moldam e enquadram esta casa como se da natureza fizesse parte.

A Casa de Chá da Boa Nova, cuja construção é iniciada em 1958 e termina em 1963, é um  projecto do arquitecto português Álvaro Siza Vieira que no ano de 1992 foi agraciado com o prémio Pritzker, considerado o Nobel da Arquitectura.

Este projecto, um dos primeiros de Siza, é um desenho dentro da paisagem que queremos contemplar.

"Las fragmentaciones y erosiones de los edificios de Siza tienen una intensa relación con el paso del tiempo y con el sentido de que todas las construcciones no son sino trazas temporales sobre un paisaje antiguo."

(El Croquis- Alvaro Siza 1958-2000)

Siza, o desenhador de paisagens

Álvaro Joaquim Melo Siza Vieira, nasce em Matosinhos no ano de 1933. É na Escola de Arquitectura da Universidade do Porto onde Siza esquissa, desde logo, o seu percurso inicial. É ali que descobre o seu traço e inicia uma viagem pelo desenho.

Siza tem Fernando Távora como mentor e o finlandês Alvar Aalto como referência. De um lado, adoptou o método e a visão racionalista, do outro a linguagem. Sobre aqueles que o influenciam, Siza responde: "Aprender arquitectura é conhecer o trabalho de muitos criadores."

Para o arquitecto, o contexto e o lugar são elementos integrantes da Arquitectura e é a partir daqui que projecta, em busca de um desenho que (re)construa a paisagem e que dela faça nascer uma obra.

O tempo é outro elemento fundamental no seu desenho, que não pode ser ignorado: uma obra nunca está terminada, está a ser permanentemente burilada e esculpida pelo tempo, quer durante a sua construção, quer depois.

"Desenhar é para ele também um modo de tomar contacto físico com a folha branca, de exercitar a memória e o prazer de uma antiga sapiência dos gestos e do olho."

(Álvaro Siza - Imaginar a Evidência)

Esboço prospectivo de estudo da Casa de Chá da Boa Nova (Álvaro Siza, Imaginar a Evidência)

Casa de Chá da Boa Nova: de monumento a ruína

"O edifício deve ficar aqui." Estas foram as palavras de Fernando Távora, arquitecto que venceu o concurso do projecto da Casa de Chá da Boa Nova em 1956, que viria a ser desenvolvido por Siza, com quem trabalhava.

A Casa de Chá na Avenida Marginal em Leça da Palmeira, enquadrada na paisagem e junto das referências: farol e capela.

Da casa vê-se o mar e do mar vê-se a casa, como uma escultura no meio da costa rochosa. Neste lugar de contemplação, o desenho da casa configura-lhe uma volumetria, geometria e espacialidade particulares que tornam a fronteira entre esta e o mar muito ténue, como se ambos os elementos mutuamente se invadissem.

"A arquitectura não tem sentido a não ser em relação com a natureza"

(Álvaro Siza, Imaginar a Evidência)

  • Depois do primeiro traço, a primeira pedra marca o início da obra em 1958.
  • Em Junho de 1963, com o final da construção, ergue-se o desenho dentro da paisagem.
  • No ano de 1991 foi necessário polir a pedra e redesenhhar o tempo, com o restauro completo da casa.
  • Em 2011, vinte anos volvidos, em estado devoluto, a casa, abandonada, é ao mesmo tempo ruína e monumento, depois de ser elevada a Monumento Nacional pela Direcção-Geral do Património Cultural.

O abandono de um Pritzker

O abandono de um Pritzker, o abandono de uma obra, de uma referência, o rasgar de um desenho e o ignorar de uma paisagem feita de natureza e arquitectura, é tornar um poema mudo. É tornar um desenho cego.  

A reabilitação de 2014: do abandono ao restaurante de luxo

Reentrar na Casa de Chá da Boa Nova é viajar no tempo, retornando ao ano da inauguração, em 1963.

Em 2012, devolve-se o monumento, devolve-se a paisagem: a Câmara Municipal de Matosinhos decide restaurar a obra de Siza.

Já este ano, em 2014, a casa reabre as suas portas enquanto restaurante de luxo do Chef Rui Paula. O mesmo desenho numa nova página.

As paredes brancas e frias - assinatura inconfundível de Siza -, contrastam com acolhedor castanho da madeira e com a presença de elementos em betão e latão que conferam ao espaço uma dimensão algo rude, que nos remete novamente para a frieza do lugar.

Quanto ao mobiliário e candeeiros, estes são desenhados pelo próprio Siza, tendo sido repostos e, em muitos casos, reconstruídos a partir do esboço original.

A Boa Nova renasce, pela segunda vez, sempre abraçada pela natureza.

A paisagem nunca se despede desta obra, por muito que o tempo e a mão humana tentem rasgar este desenho de pedra e mar.

Se Siza tem o Pritzker, Rui Paula, que é o arquitecto de serviço na cozinha do restaurante, procura, através dos seus esquissos de sabor, chegar à estrela Michelin. Agora, une-se a gastronomia de luxo ao melhor da arquitectura, ambas com cunho português.

Paladar, visão e tacto despertam em uníssono com o som das ondas como banda sonora.

O restaurante actualmente

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