Artistas plásticos: do auto-retrato à auto-representação
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Desde há milhares de anos até a actualidade, o artista olhou para si e fez da sua própria imagem motivo da obra de arte. De uma simples imitação fisionómica até uma complexa reflexão sobre a identidade pessoal e sobre questões sociais, o auto-retrato foi ganhando novos significados


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O que é que têm em comum Cindy Sherman e Miguel Ângelo? Aparentemente nada. Até que há algumas semanas a equipa de restauradores do Vaticano revelou a descoberta de um auto-retrato de Miguel Ângelo nos frescos da Capela Paulina, recentemente restaurada.

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Miguel Ângelo.

Há várias semanas Maurizio de Luca e António Paolucci, respectivamente o chefe dos restauradores e director dos Museus do Vaticano, anunciaram que no fresco da Crucifixão de São Pedro, na Capela Paulina, se encontrava um auto-retrato do seu autor, Miguel Ângelo. Nesta cena bíblica, o artista surge com um turbante e com feições que revelam melancolia, como se estivesse a sentir dor pelo santo que estava a ser martirizado .

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O auto-retrato está presente na arte desde a Antiguidade. Já no antigo Egipto encontramos um dos primeiros exemplos no século XIV a.C. com o chefe dos escultores do faraó Akhenaton,que se representou junto da mulher em forma de escultura. Na Grécia clássica, Plutarco refere que Fídias incluiu personagens com as características físicas do escultor na Batalha das Amazonas no Pártenon.

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Egipto.

A estela do chefe dos escultores do faraó Akhe- naton é a primeira amostra conhecida de auto-retrato numa época de florescimento artístico. Nela, o escultor mostra-se junto da sua mulher Tahere num baixo-relevo de 67 cm.

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Mas é com a eclosão da Renascença, a partir do século XIV, que o auto-retrato começa a ganhar força e estatuto na história da arte no Ocidente. Entre os autores mais conhecidos encontramos pintores como Giotto, Vasari ou Botticelli. Muitos dos retratos destes autores , assim como o de Miguel Ângelo na Capela Paulina, estão dentro do que se designa por retrato in assistenza, representação que nos mostra o artista dentro de uma composição colectiva, normalmente, de conteúdo religioso. Este inicialmente tímido surgimento do autor dentro da obra de arte tem a ver com o pensamento humanista que coloca a pessoa e não Deus no centro das preocupações filosóficas. A passagem do teocentrismo ao antropocentrismo permite que o artista se transforme de um mero técnico num visionário, um mediador entre a obra de arte e o espectador, o qual olha directamente nos olhos. A partir da Renascença,o auto-retrato transforma-se nas mãos dos grandes artistas.

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Botticelli.

A ‘Adoração dos Magos’ foi pintada em 1475 para a Basílica de Santa Maria No- vella para a capela funerária de Guasparre di Zanobi del Lama, um novo rico que enriqueceu de forma duvidosa. Nela, pode observar-se, para além do próprio autor (último elemento da direita), vários ele- mentos da família Medici, que, a partir desse momento, protegeriam continuadamente o artista.

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Dürer, desde finais do século XV, foi o primeiro autor que cultivou o auto-retrato repetidamente ao longo da sua carreira, construindo uma ou várias identidades públicas. Assim no Mannstreu ou a “Fidelidade do marido”, pintado em 1493, podemos ver o pintor como amante que oferece a sua imagem à prometida. No auto-retrato de 1498, que encontramos no Museu do Prado (Madrid), Dürer aparece à nossa frente como um sofisticado gentil-homem. O seu aspecto é, neste retrato, o de um homem elegante, sereno, seguro de si próprio, uma visão completamente afastada da imagem de artesão que até esse momento imperava na sociedade sobre a figura do artista. O pintor é agora representado como um intelectual, um artista vestido com roupas elegantes e aristocráticas. Para acabar esta transformação, podemos ver o auto-retrato mais atrevido, pintado em 1500, em que o artista se representa na pele de Jesus Cristo.

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Dürer.

Entre os auto-retratos mais conhecidos de Dürer encontramos aquele pintado em 1498, após uma viagem a Itália. Antes do seu regresso à sua Alemanha natal, escreveu uma carta ao seu amigo Willibald Pirckhei- mer: “Vou-me congelar depois deste sol. Cá sou um ‘gentleman’, na minha casa sou um parasita.”

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Já no século XVII, Rembrandt fez mais de 90 auto-retratos que são vistos por alguns especialistas como uma espécie de diário e, por outros, como uma forma de autoconhecimento, de diálogo com ele próprio. Os retratos de Rembrandt mostram-nos, para além da transformação física, uma mudança na sua vida interior e nos seus estados de alma. Este género de retrato, onde se mostra a mudança do temperamento, era um produto particular e altamente procurado na época em que viveu. Neste registo,podemos destacar as gravuras realizadas a partir de 1630, que mostram um Rembrandt surpreendido, raivoso, sorridente... Alguns especialistas dizem que o pintor utilizou a sua própria imagem porque dessa forma não tinha de pagar aos modelos, mas é provável que fosse também uma forma de se projectar pessoal e profissionalmente. Seja como for, e longe de especulações, o que é verdade é que Rembrandt é considerado por muitos um dos grandes retratistas de todos os tempos, e que teve uma influência notável no desenvolvimento deste género artístico em autores tão conhecidos como Van Gogh. Este, ao longo dos seus dez anos de criação artística, realizou dezenas de auto-retratos,alguns tão famosos como aquele que o representa com a orelha cortada após uma discussão com o seu amigo Paul Gauguin.

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Rembrandt.

Só a partir do século XIX é que se te- ve consciência da dimensão do trabalho em auto-retrato de Rembrandt. Existem aproximadamente entre 40 e 50 pinturas, 32 gravuras e sete desenhos que fazem deste artista um caso único na história da arte até este momento. Alguns dos seus auto-retratos estão dentro do que na tradição do barroco ‘flamenco’ é conhecido como ‘tronies’, que são imagens que mostram gestos faciais exagerados.

Van Gogh.

Entre 1880 e 1890, ano em que se suicidou, Van Gogh produziu perto de 900 pinturas e 1600 desenhos, muitos deles auto-retratos que sugeriam uma grande perturbação e tristeza. Na sua última carta escrita ao irmão Théo, o pintor diria: “Arrisquei a minha vida pelo meu trabalho, e a minha razão foi sempre des- prezada.”

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O século XX trouxe-nos o atormentado olhar de Frida Kahlo, e, com a popularização da fotografia, as cruas imagens da vida de Nan Golding ou Cindy Sherman e os seus mil disfarces.

O trabalho mais célebre da fotógrafa americana Cindy Sherman é a série Untitled Film Stills, realizada no final da década de 80, em que a artista se mostra ao público caracterizada como estudante de liceu, dona de casa, sex symbol, vedeta, e ainda outras personagens que representam os estereótipos da mulher na sociedade do nosso tempo. Desta maneira, fala da questão de género como convenção construída socialmente. Como disse a autora quando fala das suas fotografias: “Tento fazer com que as pessoas reconheçam outra coisa diferente a mim própria.”

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Nan Golding.

A obra mais conhecida da fotógrafa americana tem aver com o ‘underground’ nova-iorquino, com os ambientes da contra-cultura surgida nadécada de 60 e 70do século XX. Golding fotografa a vida sexual, afectiva, de solidão, as doenças dos seus amigos e ambientes mais próximos onde ela própria vive.

Cindy Sherman.

A artista é considerada uma das figuras mais influentes na arte do século XX e um dos rostos visíveis das reivindicações feministas no mundo da arte contemporânea. A sua obra está amplamente representada em museus tão importantes como o são o MOMA, de Nova Iorque, ou a Tate Modern, de Londres.

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E com esta frase chegamos ao fim do mistério que responde à pergunta com que se iniciou este texto. Está claro que, entre os auto-retratos de Miguel Ângelo e os de Cindy Sherman, tudo mudou. De facto a maioria do trabalho de Sherman e de outros artistas contemporâneos não corresponde ao conceito de auto-retrato. Ou melhor, o conceito de auto-retrato tornou-se insuficiente para designar os modelos actuais da representação que o artista faz de si próprio e que se manifestam em forma de interrogação sobre a identidade do criador, a essência da arte, o olhar sobre o mundo exterior e o próprio processo creativo. O artista apropria-se da imagem para a transformar ou para, paradoxalmente, se libertar dela. A partir daí abriu-se caminho lentamente ao conceito de auto-representação, para cuja criação, Miguel Ângelo, sem o saber, colocou uma das primeiras pedras.

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