Há morcegos na Amadora

Foto: Miguel Baltazar

Os heróis de banda desenhada voltaram à Brandoa. O Festival Internacional de Banda Desenhada, que há 25 anos a Amadora decidiu acolher, tem desta vez como convidados especiais o Batman, o Surfista Prateado e a Mafalda.

Nelson Dona não queria acreditar. Teve que ir ver com os seus próprios olhos. Um homem estava lá fora, ao frio do ar de Outubro, vestido apenas com um lençol. Era Hércules, o seu personagem de banda desenhada preferido, e vinha para o Festival da Amadora - que cede a entrada gratuitamente a quem incarne o seu herói. Entrou sem pagar e sem aceitar o agasalho que a organização da Amadora BD lhe ofereceu, e passeou dois andares de bandas aos quadradinhos, ilustrações, filmes de animação e caricaturas, vestido de vontade e resistências hercúleas.

Na Amadora, há um grupo de irredutíveis amantes de banda desenhada que resiste ainda à ocupação da austeridade e à crescente erosão de recursos públicos e privados para financiar a criação artística em Portugal, como diria um leitor dos livros de Asterix. Há 25 anos que o Festival teima em existir, e Nelson Dona acompanhou-os todos na organização, nos últimos 15 anos como director do Festival Amadora BD.

Para montar a exposição, que este ano celebra as contas redondas de 75 anos da criação do Batman, de 50 anos da Mafalda do Quino e 25 anos do próprio festival e da ilustradora Joana Afonso - a artista que criou o cartaz este ano, e a primeira mulher convidada para tal -, estiveram a trabalhar, desde 10 de Setembro, várias centenas de pessoas no Fórum Luís de Camões, na Brandoa. Ascende a 500, no total, o número de pessoas que fazem o festival acontecer em 2014, evento para o qual são esperados mais 30 mil visitantes, com uma programação que se divide entre a Amadora, Lisboa e Almada. Começou a 24 de Outubro e termina a 9 de Novembro.

Nelson Dona, director do Festival, está na organização desde a primeira edição. (Foto Miguel Baltazar)

Quando surgiu, há 25 anos, o que é hoje o maior Festival de Banda Desenhada do País "começou num pequeníssimo salão" da cidade da Amadora, conta Nelson Dona. "Não era para ser para ser periódico", mas iniciou-se desde logo "celebrando a importância da BD para a Amadora". Porquê? Porque muitos dos criadores e artistas associados à BD tiveram residência na cidade, porque a Amadora foi a morada da produção de duas das maiores revistas da história da nona arte em Portugal ("Mosquito" e "Tintin") e porque era lá que se situava a maior parte das instalações da indústria gráfica nas décadas áureas de editoras como a Meribérica.

O que resultou 25 anos depois ainda é "fruto do que aconteceu naqueles 15 dias" - em que o festival teve o mesmo número de visitantes do que todas as exposições do resto do ano na cidade. E durante muitos anos. Com 35 mil visitantes por média a cada edição, a Amadora BD foi, até 1994, ano em que Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, a exposição com mais visitantes no País.

Só a partir da terceira edição o festival integrou o calendário internacional, "passando a ter um profissionalismo que não havia" até então na realização do evento. E só a partir do 15º ano passou a incorporar, também, a animação, a ilustração e caricatura na exposição. Até hoje. Os organizadores dos outros festivais da programação internacional, como o que se realiza há 42 anos na capital mundial da BD - a cidade de Angoulême (França) - "dizem que somos loucos" por fazer um festival de 17 dias, afirma o director da Amadora BD. A maioria dos outros eventos de BD no resto do mundo não passa de um fim-de-semana.

Tintin, Asterix, Spirou e outros heróis de autores francófonos ainda influenciam a larga maioria dos visitantes do Festival. Mas a BD portuguesa é mais citada que o Manga (dados de 2006).

O Festival Internacional de Banda Desenhada é hoje, defende o gestor cultural, "uma aposta política grande" e uma "determinação financeira importante" da Câmara Municipal da Amadora (CMA), que custeia, na totalidade, os 510 mil euros da edição de 2014 da Amadora BD. À CMA, que manteve em 2014 a verba orçamentada para a exposição do ano passado, custa "bastante mais", defende, porque tem uma "equipa o ano inteiro" dedicada ao evento. Para quem tem de planear um evento cultural no País, enquadrar viagens de artistas em "constrangimentos processuais" inerentes à contratação do Estado em formato de decreto-lei, a vida não é fácil quando, este ano, sublinha, "já vamos na terceira leva de legislação sobre compras públicas".

O financiamento externo "praticamente não existe, é praticamente [tudo] pago pela CMA", o que também é um sinal dos tempos. No final dos anos 90, o festival chegou a ter um orçamento de cerca de 700 mil euros, 50% dos quais eram do sector privado". "A CMA recebe um milhão de euros para a cultura", contabiliza, metade do montante é canalizado para o festival, "o que, com o decorrer do tempo, fez com que o orçamento aumentasse [de peso], quando o corte [ao longo dos anos] é de milhões para a gestão da cidade". O início da década de 2000 e, sobretudo, o ano em que ocorreram os ataques terroristas às Torres Gémeas, em Nova Iorque, determinaram uma inversão do financiamento privado.

Foto: Miguel Baltazar

O Festival, hoje cartão de visita da cidade com um valor sócio-económico já consolidado, traz, por esta altura do ano, vários milhares de visitantes ao concelho. E luta também por dissolver preconceitos. Não há muito tempo, o director do Festival Internacional de BD ainda recebia telefonemas de pessoas interessadas em ir visitar à exposição na Brandoa. Perguntavam-lhe, também, "se era seguro ir à Amadora?". O residente Nelson Dona repete a resposta: a única vez que foi assaltado foi na baixa de outra cidade portuguesa.

É por isso que, como as cidades espanholas de Barcelona e Bilbao e da alemã Erlangen, a Amadora integra o projecto anti-rumores que, com o patrocínio do Conselho Europeu, luta contra o preconceito racial na Europa. Na tentativa de combater uma "visão estigmatizada" do concelho, a BD serve ainda para a Amadora trocar experiências com o projecto Renovar a Mouraria.  Esta é uma das entidades com as quais a organização do Festival trabalha directamente, assim como o Instituto Goethe, para "espalhar" a nona arte além das fronteiras da cidade.

"Uma família feliz", na versão Joana Afonso, artista em destaque e autora do cartaz do Festival Amadora BD deste ano.

Num evento que faz, em média, cerca de 15 mil euros de receitas, a CMA assume o diferencial entre custos e benefícios, tendo em retorno "lotação esgotada" de visitas para escolas. Há dias do Festival que começam com 1.000 crianças à porta do Fórum Luís de Camões para ver "bonecos" - um terço das visitas são crianças em idade escolar.

Até ao final da exposição, que termina este fim-de-semana (dia 9 de Novembro) miúdos e graúdos podem aproveitar a oportunidade de cruzar-se ainda com Thomas Grindberg (EUA), no âmbito das exposições “Batman, Ano 75” e “Surfista Prateado” e com Joana Afonso, autora em destaque no Festival (vencedora de “O Baile”, vencedor do melhor álbum), entre outros. Também lá está a personagem Mafalda, cuja crítica social se mantém "tão actual" como quando o argentino Quino a criou há 50 anos, relembra Nelson Dona.

Quanto ao preço, "em vez de cobrar bilhetes que deveriam ter um custo de 20 a 30 euros" no Festival, a organização assume o encargo de "receber três euros, dois euros ou mesmo 0 euros, se forem de uma escola" por cada entrada. Nada é igualmente cobrado a quem chegar à bilheteira vestido do seu herói de BD predilecto. Como, por exemplo, de Hércules. Com lençol.

Isabel Aveiro

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